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PERMACULTURA:
Conceito, princípios e desafios |
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Por Filipe C. Macario*
Criado há pouco mais de trinta anos, pelos australianos Bill Mollison e David Holmgren, o conceito de Permacultura surgiu para definir a concepção de um modelo de agricultura (ou cultura) permanente, baseado na construção de um ambiente onde a produção agrícola e a pecuária encontrassem uma espécie de simbiose com a natureza local, atuando, assim, de maneira integrada ao meio ambiente ao invés de degradá-lo.
Com o passar do tempo, e a crescente preocupação com a preservação ambiental, o conceito se transformou, e hoje a adoção de seus princípios também se aplica aos espaços urbanos. Desde então, a Permacultura passou a assumir o caráter de um sistema de planejamento para a criação de ambientes humanos sustentáveis, que visa tornar possível a otimização do espaço e dos recursos escassos (em especial, a energia e a água), evitando o desperdício e a poluição.
Pode-se dizer, portanto, que a Permacultura busca fazer uso de métodos ecologicamente saudáveis e economicamente viáveis que se tornem auto-suficientes no longo prazo, tentando maximizar as conexões funcionais entre o homem e o ecossistema no qual está inserido. Para isso, ela parte da premissa que plantas, animais, construções e recursos naturais fazem parte de um sistema intrinsecamente relacionado, ao invés de considerá-los como elementos isolados.
No Brasil pode-se observar que a proliferação de instituições voltadas ao ensino e a prática da Permacultura tem cada vez mais ampliado o número de pessoas que se interessam e iniciam o seu aprendizado. E este efeito em cascata, associado aos princípios de cooperação e solidariedade, que também orientam essa cultura, tornam-na ferramenta indispensável para a construção do novo paradigma de desenvolvimento, baseado na sustentabilidade ambiental, econômica e social.
Contudo, a despeito de todo esforço empreendido pelas pessoas e instituições que a promovem, a Permacultura é uma ideologia ainda pouco conhecida e em estágio de desenvolvimento. Isto reflete, em grande medida, os limites de sua aplicação dentro do espaço urbano. Não é a toa que, no Brasil, grande parte dos projetos se concentram em ambientes onde há certa abundância de recursos naturais (como fazendas e sítios). Para superar os obstáculos relativos às áreas urbanas, é necessário tempo, estudos e pesquisas.
Para tanto, apesar dos métodos encontrados nos manuais de Permacultura estarem em grande medida baseados no conhecimento tradicional, não podemos tomá-los como necessariamente estáveis. Mantidos os princípios que os norteiam, os sistemas permaculturais devem evoluir, por meio de um processo dinâmico, contínuo e orientado para o Desenvolvimento Sustentável. Neste sentido, o setor empresarial assume papel relevante, posto que, além de possuir responsabilidades socioambientais consideráveis, trata-se de uma das principais fontes promotoras de inovação da sociedade.
Dentro das áreas urbanas, observa-se que o vetor principal da aplicação da Permacultura são as construções de viés ecológico, que apresentam, em geral, cinco eixos básicos: i) a utilização de recursos naturais de baixo impacto ambiental e materiais reciclados; ii) a economia de energia, por meio de maior conforto térmico e/ou utilização da luz solar para iluminação ambiente; iii) o uso de energia limpa (solar ou eólica); iv) o uso consciente da água, através da reutilização da mesma para usos específicos e/ou por meio da captação de água das chuvas; e, v) um sistema de saneamento ecológico (por meio de tratamento ou da reutilização dos dejetos para fertilização do solo) – sendo este, um elemento ainda pouco explorado.
Por fim, outro ponto importante a se destacar é o papel que a Permacultura dá a mudança de comportamento por parte dos indivíduos e das comunidades. Ela propõe que os indivíduos sejam capazes de governar suas próprias necessidades, impondo limites ao consumo e buscando uma melhor repartição do excedente para facilitar o acesso de todos aos recursos necessários à sobrevivência, estabelecendo, portanto, relações harmoniosas entre as pessoas e destas com a natureza.
Logo, pode-se dizer que a Permacultura se baseia em três preceitos éticos: i) o cuidado com o planeta; ii) o bem-estar das pessoas; e iii) a criação de comportamentos e ações que visam o desenvolvimento sustentável do ponto de vista ambiental e social.
* - Filipe C. Macario é Mestre em Economia pelo IE/UFRJ e Coordenador do Programa de Economia e Finanças para o Desenvolvimento Sustentável do IFV.
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